Fui buscar as minhas asas…


Hoje tem relato mais que especial do ultramaratonista Renan, que realizou os 95k da prova UAI – Ultra dos Anjos Internacional. Se você tem curiosidade pra saber mais sobre as ultras, aproveita que essa história faz nos sentir dentro da prova!

Difícil acreditar que existam corridas que se tornam um divisor de águas na nossa vida e é mais ou menos assim que estou considerando esses 95 km enfrentados no último dia 01 de Julho de 2016, pois a prova não foi fácil, em vários momentos pensei em desistir.
​Havia algum tempo que eu tinha vontade de participar dessa prova, infelizmente até a edição de 2015 eu não me sentia preparado,  (e realmente não estava pela  comprovação disso nesse ano) pois é uma prova que envolve muito mais que a preparação física, mesmo para os 25km, a preparação mental é primordial, pois não existem lugares planos na prova, é um tal de subir e descer que eu desconhecia até então.

​Mas com a inscrição garantida, lá fui eu para Passa Quatro – MG ver o que me esperava.  As distâncias da prova são as seguintes: 25k, 65k, 95k, 135k e, para aqueles mais malucos, 235k (quem sabe um dia, bem distante, talvez eu pense nisso). Ia dar carona para nada menos do que um bi-campeão da distância de 235k, Oraldo (que virou tri em 2016)! Durante o caminho fomos conversando e ele me contando histórias incríveis tanto da UAI quanto de várias outras provas que ele participou e ganhou, com uma simplicidade que só quem conhece comprova. Estava ali já me imaginando cruzando a linha de chegada com todas as histórias, até que ele me contou que também sentia dores e que no domingo seria difícil subir as escadas da casa dele! Me senti um pouco mais normal com esse relato.

​Chegando em Passa Quatro fomos direto para onde teria o congresso técnico da prova e retirada dos Kits, a Pousada do Verde. Ali estava eu, próximo dos maiores Ultramaratonistas do Brasil, prestes a enfrentar uma prova insana e escutando histórias de quem estava dobrando a prova, como a Fabíola Otero, que fez em 2016 470km da UAI. 

Na retirada dos kits bateu o nervoso! Pensei: é amanhã que vou enfrentar a maior distância da minha vida e isso não é nem metade do que os loucos enfrentarão nos 235k! Mas como nunca podemos nos comparar, mantive a minha concentração na minha prova! Seria a minha maior distância, pois ano passado não consegui completar os 100k em pista em Novembro por problemas na cronometragem, então estava preocupado em conseguir e estar em um terreno que nunca havia pisado antes.

​Saindo do congresso, após o jantar de massas, fui ao mercado comprar as últimas coisas que faltavam, conversei um pouco com alguns ultras que estavam no mesmo hostel que nós e já era hora de descansar. A ansiedade fez o dia ter muito mais de 24 horas, parecia que não terminaria nunca. Confesso que não é comum eu demorar pra dormir e muito menos acordar centenas de vezes durante a noite antes de uma prova, mas dessa vez foi diferente. Eu realmente estava preocupado, não dormi direito, acordei antes do despertador! Terminei de arrumar as minhas coisas, coloquei todo o suporte no carro de apoio, tomei café da manhã que a Dona Doca do hostel preparou perfeitamente e assim parti pra largada, já não vendo a hora de iniciar para toda aquela ansiedade passar. 


Já na arena da prova, houve aquele momento das fotos oficiais: tanto da assessoria quanto da prova, o hino nacional e, até que enfim, é dada a largada.

​Os dois primeiros quilômetros são feitos dentro da cidade, com ruas de paralelepípedo e os carros na cidade tendo que parar para os atletas passarem. Logo depois que saímos da cidade, já começam as subidas, ainda nada íngremes, conseguindo imprimir um ritmo bacana de corrida, o que é primordial em uma ultramaratona. Como o próprio treinador diz: chegue na sua zona de conforto e diminua ainda mais, pra ter sobras pro fim da prova. Difícil fazer isso e não ir mais forte do que deveria, mas as subidas te jogam na cara a necessidade de diminuir o ritmo e se manter forte. Até os 25km a prova ia bem, as subidas eram longas, mas nada muito forçado e o visual do percurso, com um dia de sol, compensava qualquer esforço! A prova passa por lugares maravilhosos do interior de MG e não dá pra fazer uma prova dessas sem reparar em tudo a sua volta.

​Chego no primeiro PC com 25km junto de uma amiga, a Aline, que também estreava na UAI, mas que pararia por ali. Já é hora de recarregar a mochila de hidratação e o carro de apoio estava mais pra trás, ajudando outros da assessoria, porém o treinador Carlos Mello, de outra assessoria, estava fazendo o apoio da Fabíola me ajudou: recarregou minha água e me deu a dica de me poupar, pois a parte mais difícil até os 95k estava se aproximando, a temida Serra do Papagaio, que teria cerca de 16k de subida ininterrupta. Pude comprovar que tinha pelo menos uns 20k de subidas intermináveis, íngremes em sua maior parte, mas com trechos que dava pra trotar e conversar com o Deco e a Lilian Guerreiro que fizeram do km 31 ao 42 junto comigo. Eles me encontraram em um momento que minha cabeça tinha pirado, tinha acabado de tomar uma Coca-Cola com um Club Social que não me caiu bem, pra melhorar tudo, senti a temperatura do corpo aumentando, estava suando demais e não tinha reparado que eu ainda estava com a segunda pele por baixo! Sentei no km 31 por 10 minutos e conversando com um atleta dos 135k que, ao sair de lá olhou pra minha cara e disse “só não desista”, isso entrou na minha cabeça de um jeito, eu estava pronto pra desistir, além de tudo que eu falei, a minha lombar, que vinha reclamando desde a Maratona do Rio já dava mais sinais de desgaste… mas foi só o carro e apoio chegar até mim, tirei a blusa que estava por baixo, tomei um Gatorade bem gelado, descansei mais 5 minutos e fui terminar essa subida.


​Confesso que meu ritmo nesse trecho não era dos melhores, preciso melhorar o ritmo de caminhada, principalmente nas subidas. Com isso, o Emerson Bisan (meu treinador) e a Marisa (atleta da assessoria) chegaram em mim no km 45 aproximadamente e dali até o fim fomos juntos. Após a Serra do Papagaio começa a descida, muitos podem achar que seria um alívio nessa hora, mas com as dores nas pernas que chegaram com a subida, já ficava difícil soltar o corpo e correr doía ainda mais, acreditem. Ainda mais no final da descida que era recheada de pedregulhos, tornando mais difícil ainda correr por ali, por mais que nós tentássemos, era, de certa forma, até um pouco perigoso. Nesse momento, chegando ao fim da descida o dia já começava a virar noite, largamos às 8h da manhã e com menos de 60km já estava anoitecendo… incrível reparar ali que já corríamos há umas 9h, aproximadamente, e o PC dos 65km ainda estava a uns 6km de distância. 

Chegando próximo da estrada, talvez um dos únicos momentos mais planos, o Emerson teve a ideia de fazermos um esquema de perseguição, para motivar a corrida e fazer o corpo trabalhar, cada um liderava o pelotão por alguns segundos, em fila única e saia de lado para descansar, mais ou menos como fazem os ciclistas em um Tour de France, mas eles usam o vácuo, nós usavávamos apenas a motivação de correr.

​Passados os 6km restantes até o PC dos 65km, na cidade de Alagoa, com 10h15m de prova aproximadamente, chegamos no PC. Paramos um pouco para descansar, recarregamos nossas baterias, momento já de total escuridão, hora de colocar o colete refletivo, comer… O apoio nesse momento foi crucial! Nos ajudaram em tudo, encheram nossas mochilas, deram um suporte incrível, mas elas também precisavam jantar e após sairmos do PC pra finalizar os 30k restantes, pausa pra elas descansarem um pouco e comerem, afinal, saco vazio não para em pé, certo? E elas ainda seriam muito importantes nesse último trecho. 


E lá fomos nós, Emerson, Marisa e eu atrás desses 30k restantes, logo que saímos da cidade e entramos na estrada percebemos porque a organização pede coletes refletivos e lanternas, entramos em um breu que não se enxergava um palmo à frente. Momento de utilizar as lanternas e tentar achar as setas nas bifurcações, de tentar olhar onde estava pisando, afinal de contas, estradas de terras tem muitos buracos e ali, com o corpo inteiro desgastado, qualquer pisada torta seria um risco. Corremos pouco mais de 10km nessa escuridão até o carro de apoio chegar na gente e pedirmos pra elas continuarem atrás de nós iluminando todo o caminho pela frente, pelo menos nos próximos 10km. Com isso, nos forçamos a correr, ou pelo menos achávamos que estávamos correndo… mas foi perfeito o suporte que deram nesse trecho, se não fosse o carro de apoio iluminando a estrada, com certeza nós teríamos demorado ainda mais pra chegar. Passados mais esses 10km seria a hora do carro partir para a chegada, mas outro ponto positivo pro nosso apoio: resolveram ficar atrás de nós até a chegada, mesmo que devagar e seguindo o nosso ritmo.

​Os nossos corpos nesses últimos 10k não respondiam mais aos nossos estímulos, por mais que a cabeça quisesse correr, o corpo praticamente não aguentava mais, o desgaste estava muito grande, enquanto o Emerson brincava batendo em todas as flores fingindo serem pessoas dando apoio, eu e a Marisa mal conseguíamos falar! Mas todos concentrados em um único objetivo, chegar nos 95km. A cada km que o relógio apitava, era uma comemoração atrás da outra, era um km a menos, eram alguns passos a menos até avistar a cidade de Aiuruoca. Porém, após avistarmos a cidade, ela não chegava nunca! A Aline (que entrou no apoio nos 25k) e a Carol (que fez nosso apoio desde o começo), resolveram ir caminhando com a gente, dando pra nós uma última dose de energia e motivação pra ir até o fim. Foram os 3km mais longos da minha vida, o relógio já marcava 95km e a cidade ainda parecia distante, parecia que nunca ia chegar. Ninguém falava mais nada, ninguém tinha forças pra mais nada, até que um morador da cidade nos falou que faltavam uns 200m, nisso o carro de apoio passa a gente, Carol e Aline correm até a chegada, enquanto eu, Emerson e Marisa nos abraçamos pra chegar junto e completar a jornada dos 95km em, aproximadamente, 15:50h, largamos às 8h da manhã e chegamos às 23h50m, cansados, exaustos, mas com forças para abrirmos o nosso melhor sorriso e nos emocionarmos com mais uma conquista.


​Chegamos ali para buscar as nossas asas, chegamos para aprender a voar e saímos dali com um aprendizado incrível, prontos para enfrentar grandes desafios, nos conhecendo ainda melhor e querendo que tudo aconteça sempre da melhor forma. Cada um com seu objetivo, cada um com a sua loucura e sempre querendo dar o seu melhor.

E foi assim, às 23:50 do dia 01/07 que tornei o dia ainda mais especial, não só pelos 95k, mas por ser nesse dia, há 11 anos atrás, que eu conheci a pessoa que mudaria a minha vida, que me incentivaria acima de tudo a realizar essas loucuras e a quem dediquei e lutei para terminar essa prova. Vivian, minha esposa, companheira e incentivadora, te amo.


Renan @10ktododia

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