O dia em que eu corri 75km pela primeira vez

Era um privilégio estar ali. Depois de alguns meses de treinamento, o grande dia simplesmente estava bem ali na minha frente. Eu podia quase que apalpar este momento com as mãos.Comecei a arrumar as minhas coisas. Era mais ou menos 6 horas da tarde. Fiz tudo de forma lenta e bastante calma. Eu queria perpetuar este momento para sempre. Estava sonhando, só que de olhos abertos.
No fundo, eu parecia uma criança ansiosa pelo dia seguinte do passeio na escola. Deitei na cama e ao invés de dormir, fiquei imaginando como seria o amanhã. Eu tava rindo sozinha. Comecei a montar diversas histórias na minha cabeça e, de repente, eram 3h da manhã. O relógio despertou e eu não esperei tocar 2 vezes. Era o dia mais feliz da minha vida na corrida.
No caminho até a largada, passou um filme na minha cabeça desde o dia em que decidi fazer esta prova. Treinos sofridos, muitos tiros, persistência nos treinos de força, treinos longos que começavam de madrugada, dieta, treino e dieta de novo, acompanhamento médico, provas, provas e mais provas. Foram 8 ao todo. Duras. Perdi uma despedida de solteiro, o aniversário da minha sobrinha e um casamento. Perdi jantares. Perdi a hora algumas vezes. Mas ganhei a vida. Ganhei amigos. Ganhei parceiros. Respeito. Admiração. Recordes e mais recordes pessoais. Pódios. Ganhei compreensão da minha família, dos meus amigos e dos amores. Ganhei apoio. Ganhei a mim mesma. Eu, que por tanto tempo procurei um caminho pra chamar de meu, agora tinha um e era bem longo: tinha mais ou menos 75 km e ele era indicado por um número de peito vermelho. Meu Deus! O número de peito!!! Esqueci na casa.
Volta pra casa, pega número, volta pro caminho da largada. 50 minutos de uma adrenalina insuportável. Me sentia dentro do carrinho da montanha russa na boca da descida. Isso só parou quando encontrei o mar do @tsunamiazul, que estava reunido me esperando pra foto oficial. Enfim, cheguei!
Eu era a mulher mais feliz do mundo. Não me faltava nada. Eu tava lá – plena, completa, serena. Sabe quando você se arruma para um encontro amoroso e conta as horas pra chegar esse momento? E sente aquele frio tomar seu corpo, sua mente até você avistar o alvo do seu desejo? Era igual. Ali era meu encontro. Meu encontro com o que mais me desafia. Meu encontro com o meu limite. Meu encontro com a dor. As minhas escolhas pessoais sempre foram relacionadas com o grau de dificuldade da situação. Não sei por qual motivo, mas nunca escolhi o caminho mais fácil, desde cedo sempre que a vida me desafiava, eu dobrava a aposta.


A prova estava invertida e eu pensei no quanto a vida coloca a gente de cabeça pra baixo. Aquela paixão que você não imaginava mais viver a esta altura do campeonato, a mudança de cidade, de estado de país. A mudança de lado. A demissão. O novo emprego. Uma viagem inesperada… e aí, no final das contas, a gente descobre que no fundo, era o lado certo. O percurso tradicional e original da prova é com largada em Bertioga e chegada em Maresias. Agora, teríamos que encarar a serra no começo. 6h15 e toca o sino. 500m de areia fofa até ficarmos parados por alguns longos minutos para entrar no corredor que leva à estrada de asfalto. Cruza olhares. Dois pensamentos tomaram minha mente: 1) Se acha que está indo devagar, reduza. Chega mais rápido quem curte o caminho. 2) EU ESTOU NA BM. Meu Deus, eu to aqui! Eu escolhi estar aqui e sou uma sortuda por isso! Chovia bastante, mas este era o cenário reservado para mim! – Hey, alguém me beslica?
 
Antes da chegada no PC1 passei no banheiro e me dei conta que havia perdido todo meu dinheiro e cartão de crédito. Sem pânico, eu não ia precisar de dinheiro. Corre, corre, corre. Passa pelo PC1, encontra amigos e corre mais para o PC2. Pausa rápida para hidratação e suplementação. Faço doação de água pra outro solo e bora. Antes do PC3, encontrei muita lama, muita lama mesmo e aqui comecei a intercalar corrida e caminhada forte. Eu só pensava em chegar no carro de apoio para poder comer. O relógio marcava 4h23 de prova e 30,5km.
Daqui pra frente os PCs estavam praticamente vazios, a chuva não cessava. Uma certa inquietação por estar tão sozinha e ai o nome da categoria SOLO assumiu um novo sentido. Até o PC4 eu entendi que realmente a corrida é minha e agradeci por estar correndo só para mim. Não, não corro por ninguém mais. Não corro para mostrar nada para ninguém. Eu corro porque a corrida é meu mundo imperfeitamente perfeito, onde eu conheço os obstáculos, mas assim como na vida, não deixo de ter imprevistos. Encontro meu apoio e, com ela, além de um olhar que dizia eu acredito em você, também tinha suplementação e hidratação. @thaly, você foi incrível! Remédio para aliviar um pouco da dor nas costas causada pela mochila de hidratação (quem nos dera existisse uma espécie de Advil para curar a dor da desilusão ou da saudade. Quem dera uma Aspirina para aliviar o peso da carga da vida que muitas vezes insistimos em levar até o próximo ponto!) e segue o jogo.


Corre e anda e chego no PC5 e lá estava ele: Não tenho como agradecer as aparições repentinas do meu personal, o @emidio. Eu falei pra ele que não era pra ir, mas ele insistiu. Neste momento eu já tinha encontrado com ele algumas vezes, mas neste ele foi andando comigo e pudemos trocar algumas palavras.
Ele: Como você está?
Eu: To bem!
Ele: Dores?
Eu: Não. Queria ver mais gente. Não tem ninguém na prova.
Ele: Mas eu to aqui.
Silêncio.
Ele insistia em dizer que eu tava bem e eu, obediente que sou, resolvi acreditar.
Subi o início do trecho andando e o relógio marcava 50,5km. Minha prova começava ali. Felicidade durou pouco rsrs, tava feliz da vida correndo no asfalto e entro num MANGUE. Isso mesmo. Lembrei das provas de montanha da dona @aurea e enfiei o pé na lama, os dois, literalmente. Este trecho peguei bastante praia e comecei a cronometrar o corre e anda. A chuva fez a areia ficar fofa e pesada e tava um pouco difícil evoluir com a corrida. Me forcei a correr 700m e andar 300m… Em um momento, peguei meu celular e comecei a ver a quantidade de pessoas e meus pais me mandando mensagens e boas vibrações. Desceram algumas lágrimas por pensar que tanta gente acreditava em mim.
Cheguei no PC6 , só bebi um pouco de isotônico, tirei a areia do tênis que incomodava demais e parti. Corri com algumas pessoas e já estava “feeling home” por estar no mesmo trecho do treinão que fizemos neste pedaço anteriormente. Isso teve um gosto bom, tipo quando você está fazendo o caminho de volta da viagem de férias.
Passei pelo PC7, horário bem avançado, larguei mochila, troquei de camiseta e fui embora. Aqui os pensamentos de “quando vou fazer a próxima?” já percorriam todo meu corpo. Confesso que este trecho ficou bem comprometido pela exaustão física. Dores? Nenhuma. Era só cansaço mesmo. Toda vez que começava a correr, tinha que parar para passar por uma espécie de canal ou tinha que reduzir para passar por alguma vala de areia. Isso prejudicou um pouco o ritmo constante, acabei andando mais do que eu gostaria, mas tava felizona! 
De repente, me junto à 3 pessoas (só lembro do nome da @leana) e fomos rumo a chegada. Vejo o SESC do meu lado direito e ai já sei que faltam 4 km. Meus Deus! Meu sonho era realidade! Neste ponto decido que vou voltar na próxima edição da prova, em Maio de 2017. Vejo meus amigos correndo em minha direção e me preparo para chorar. Ué, mas cadê as lágrimas? Gente, c-a-d-e-a-s-l-a-g-r-i-m-a-s? Vejo meus amigos, meu treinador @bisan e abro meu melhor sorriso. Cruzo a linha de chegada, ergo as mãos pra cima e solto um: CHEGUEI!

Melhor sensação da vida
.


Texto lindo da nossa amiga Aline ,que no último sábado se tornou ultramaratonista oficial na prova Maresias-Bertioga. Parabéns Line! Com certeza você inspirou muitas pessoas a perseguirem seus sonhos, sejam eles quais forem! Nos ajudou a pensar e  a buscar o que realmente nos faz bem por nós mesmos! Obrigada por dividir isso conosco!! 😊

Anúncios

Um comentário sobre “O dia em que eu corri 75km pela primeira vez

  1. Mto emocionante!! Sou meia, e quero neste ano q se aproxima , me tornar maratonista, e depois, continuar.. é um sonho..lendo o seu relato Aline, me vi, por alguns momentos.. nossa, mto show!! Parabéns pela garra, pela força, pelo foco!! Guerreira e exemplo!! Obrigada por dividir tanta emoção cm a gente!!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s